Existem decisões cujos efeitos são sentidos por anos, às vezes, décadas. São medidas capazes de redefinir os rumos de empresas e de economias inteiras. EXAME consultou 13 consagrados economistas e políticos brasileiros - nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os economistas Claudio Haddad e Eduardo Giannetti da Fonseca - para chegar a uma lista de 14 medidas que fizeram história nos últimos 40 anos - e que continuam a ter impacto ainda hoje. Os episódios citados, não por acaso, envolvem grandes inovações tecnológicas, lufadas liberalizantes e a consciência - às vezes visionária - de que fazemos parte de um mundo, para usar o termo cunhado pelo americano Thomas Friedmann, plano. Cada uma à sua maneira, essas decisões ajudaram a desenhar a nova face da economia do país. Seus efeitos estão presentes hoje - e deverão ser sentidos.
Por Serena Calejon
1969 - O governo militar cria a Embraer
A Embraer, quarta maior fabricante de aeronaves do mundo, nasceu por decreto. Em agosto de 1969, o presidente Arthur da Costa e Silva determinou o início da produção do modelo Bandeirante, um barulhento turboélice, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O principal objetivo era fornecer aviões para o Exército, mas logo o Bandeirante passou a compor a frota de companhias aéreas, como Vasp e Transbrasil. Primorosa em tecnologia, a Embraer chegou aos anos 90 à beira da falência com uma estrutura de pessoal pesada e uma série de modelos ultrapassados. Em dezembro de 1994, o grupo comandado pelo Bozano, Simonsen e pelos fundos de pensão Previ e Sistel arrematou a empresa na privatização. O executivo Maurício Botelho, presidente da Embraer desde então, protagonizou uma espetacular recuperação -- em 2006, o faturamento da empresa superou 3 bilhões de dólares. Em abril, Botelho passará o comando da operação para Frederico Fleury Curado, que fez carreira na companhia. Atualmente, a Embraer é um dos exemplos mais pujantes do avanço de empresas de países emergentes em setores até pouco tempo atrás dominados por concorrentes do mundo desenvolvido. No segmento de jatos para aviação regional, a companhia disputa a liderança mundial com a canadense Bombardier. "Hoje a Embraer projeta o Brasil em todo o mundo num setor de tecnologia de ponta", diz o economista Claudio Haddad, presidente do Ibmec São Paulo.
1973 - A semente do agronegócio brasileiro
Em 2006, o Brasil produziu 117 milhões de toneladas de grãos -- mais que o triplo da produção registrada no início dos anos 70. Poucas decisões foram tão cruciais para essa gigantesca multiplicação quanto a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973. Um dos principais feitos da estatal foi a adaptação às condições locais de certas culturas, como a da soja -- típica de climas temperados. Outra conquista foi a viabilização agrícola do cerrado, uma região de solo ácido e arenoso, originalmente impróprio até mesmo para o plantio de um pé de alface. Hoje metade da produção da soja brasileira vem dessa região. No ano passado, a Embrapa recebeu o maior orçamento de toda sua história: 1 bilhão de reais. Mesmo assim, o valor é insuficiente. Com estudos em áreas que envolvem tecnologias cada vez mais caras, seus cientistas passam cerca de 60% do tempo buscando dinheiro em parcerias com o setor privado.
1975 - O início do Proálcool
O mundo mal se recuperava do primeiro choque do petróleo quando o então presidente Ernesto Geisel lançou o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, para livrar o Brasil da dependência da gasolina estrangeira. Durante um período de quase dez anos, o governo brasileiro investiu 16 bilhões de dólares em pesquisas genéticas para melhoria da cana-de-açúcar, subsídios ao preço do álcool e financiamento de máquinas agrícolas a juros baixos. Nos anos 80 e 90, a queda do preço do petróleo e o aumento da cotação do açúcar no mercado mundial esfriaram a produção e a venda de etanol no país. O Proálcool morreu sufocado na politicagem, no favorecimento de grupos pouco competitivos e na descrença do consumidor. Três décadas mais tarde, a tecnologia desenvolvida graças à decisão tomada durante o governo Geisel ajudou a colocar o Brasil na vanguarda dos países produtores de etanol, considerado hoje um dos sucessores do petróleo como matriz energética em todo o planeta. A venda de etanol no Brasil movimentou 6,2 bilhões de dólares em 2006 e a expectativa é que esse valor alcance 15 bilhões de dólares em 2010. O setor hoje atrai olhares e dólares de investidores de todo o mundo.
1977 - A Petrobras vai ao mar
Criada em 1953, durante duas décadas a Petrobras só extraiu petróleo em terra firme. Em 1977, deu uma guinada em sua estratégia e passou a explorar comercialmente o campo de Enchova, na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, a uma profundidade de 120 metros -- um passo que exigiu anos de pesquisa. À época, a decisão foi vista como temerária, devido aos elevados custos do projeto e aos riscos e complexidade de uma operação em alto-mar. Hoje a Petrobras é referência mundial em tecnologia de exploração e produção em águas profundas. Quase 80% da produção nacional de petróleo vem da exploração marítima, em operações que chegam a 1 500 metros de profundidade. Se não tivesse optado por entrar nesse mercado duas décadas atrás, dificilmente a Petrobras teria conseguido garantir a auto-suficiência brasileira na produção de petróleo, um feito alcançado em 2006.
1980 - A era do dinheiro eletrônico
No início da década de 80, o setor financeiro estava entre os poucos que conseguiam crescer em meio à crise econômica que freava o país. E foi justamente nessa época que o Brasil entrou na era do dinheiro eletrônico, aproveitando tecnologia nacional. Duas instituições disputavam a liderança na corrida eletrônica: Itaú e Bradesco. Em setembro de 1980, o Itaú inaugurou a primeira agência informatizada, ligada eletronicamente a um computador central. No mesmo ano, o Bradesco apresentou sua inovação: um terminal eletrônico de consultas para clientes. O movimento era a gênese de uma ruptura tecnológica que levou os bancos brasileiros à condição atual de modelo de sofisticação em automação bancária no mundo. Para os clientes, o mundo mudou. A rede que interligava as agências permitia um feito até então impensável: sacar dinheiro ou fazer depósitos em qualquer agência de seu banco -- e não apenas onde o cliente tinha conta aberta. Hoje o que está em jogo é quem será o primeiro a levar as transações bancárias para o celular. O Banco do Brasil saiu na frente quando passou a oferecer, em meados de 2004, o mobile banking, serviço de consulta de saldos e transferências entre contas pelo celular. O próximo passo é transformar o celular em meio de pagamento em estabelecimentos comerciais.
1990 - O país se abre para o mundo
Nos anos 70, o governo militar brasileiro exacerbou barreiras enormes às importações no esforço de desenvolver a indústria nacional. A medida protegeu artificialmente uma série de empresas com um nível de eficiência inferior em relação ao resto do mundo -- o que prejudicou o consumidor brasileiro e limitou a capacidade de atuação dessas companhias no mercado global. Em 1990, o então presidente Fernando Collor tomou aquela que foi provavelmente a única resolução que o faria ser lembrado de maneira positiva -- a liberalização das importações. "Ele foi o responsável, na ocasião, mas o país estava maduro para a decisão de abrir a economia", diz o economista Roberto Teixeira da Costa. A abertura, nos anos 90, representou um choque de realidade para as empresários brasileiros que prosperaram dentro de uma bolha que os isolava do mundo. Algumas empresas morreram, outras foram vendidas. Muitas das que sobreviveram ao tranco tornaram-se competitivas mundo afora. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao longo dos anos 90 a produtividade da indústria brasileira cresceu quase 8% ao ano. A abertura econômica, porém, é um processo que ainda não terminou. "Ainda temos muito trabalho pela frente", diz Eustáquio Reis, diretor do Ipea. Segundo estudo do instituto, alguns setores ainda são protegidos com mais de 100% de taxação.
1994 - O plano real e o fim da hiperinflação
Poucos acreditaram que daquela vez era para valer. No final de fevereiro de 1994, o presidente Itamar Franco bateu o martelo no lançamento de mais um entre os inúmeros pacotes de medidas econômicas contra a hiperinflação que assombrava o país havia vários anos. A despeito do descrédito inicial, o Plano Real finalmente acabou com uma inflação que no ano anterior atingira assustadores 2 567% (algo quase inimaginável hoje, com uma inflação anual de 3,14% em 2006). O mecanismo do plano foi criar um novo indexador para a economia, com valor atrelado ao dólar: a unidade real de valor, a URV. Alguns meses depois, a URV teve seu nome trocado para Real e a nova moeda passou a circular fisicamente pelo país. O Cruzeiro Real foi extinto. "A tomada de decisão foi um momento difícil, porque alguns ministros achavam que o Plano Real traria perda salarial", diz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda e mentor do Real. Com o fim da cultura de inflação, o Brasil pôde postular um lugar no grupo das economias civilizadas. A estabilidade se transformaria na base de todos os progressos feitos pela economia brasileira a partir de então.
1994 - A construção de uma marca global
Desde que foram lançadas, em 1962, as sandálias Havaianas ficaram conhecidas pelo popular bordão "Não deforma, não tem cheiro, não solta as tiras". Em 1994, a São Paulo Alpargatas, fabricante das Havaianas, decidiu que era hora de dar um upgrade na imagem da popular sandália de borracha e lançou uma linha monocromática, com design sutilmente diferente. O produto saiu dos balcões do pequeno comércio e partiu para o grande varejo. O movimento foi o embrião do estrondoso sucesso que as Havaianas fazem hoje não só no Brasil mas também no exterior. Desde o ano 2000, as Havaianas são exportadas para todo o mundo e se tornaram uma das raras marcas nacionais a ter projeção internacional. Celebridades como Angelina Jolie, Jennifer Aniston e Kate Hudson já foram flagradas com o chinelinho nos pés. Só no ano passado, foram exportados 18 milhões de pares. Segundo pesquisa da Interbrand, consultoria especializada em marcas, em 2006 as Havaianas se tornaram o produto brasileiro mais popular no exterior, desbancando a mítica seleção de futebol.
1998 - O novo jogo das telecomunicações
O leilão do Sistema Telebrás, realizado em julho de 1998, arrecadou no total 22 bilhões de reais na venda de 12 concessões de operação. A venda das ineficientes prestadoras de serviço de telefonia estatais acabou com as intermináveis filas (a instalação de uma nova linha levava anos) e os valores astronômicos antes cobrados por uma simples linha telefônica (que chegavam a valer até 4 000 dólares). "Todos os setores foram extremamente beneficiados, porque cada vez mais as empresas precisam trafegar dados", diz Mauro Peres, diretor de pesquisa da consultoria IDC Brasil, especializada em tecnologia da informação e telecomunicações. "Hoje o país tem uma boa estrutura de telecomunicações e isso ajudou a aumentar a produtividade das pessoas e das empresas."
A dimensão do avanço impressiona quando se observa, por exemplo, a quantidade de pessoas com acesso à internet -- que passou de 480 000 em 1998 para 35 milhões atualmente. A proporção de telefones fixos era de 12 por 100 habitantes. Hoje é de 27. O volume de usuários de telefone celular é ainda mais vultoso -- 100 milhões de aparelhos em funcionamento no Brasil. "Sem a abertura, seguramente estaríamos falando em, no máximo, 10 milhões de usuários de celular", diz Peres.
1999 - Entramos na era das fusões
A fusão das cervejarias Brahma e Antarctica, que deu origem à Ambev, foi um dos movimentos mais inesperados e simbólicos do ambiente brasileiro de negócios. Primeiro porque uniu sob um mesmo teto inimigos aparentemente inconciliáveis. Segundo porque colocou o Brasil na era das grandes fusões, um período no qual se buscam escala e competitividade globais. A Ambev nasceu gigantesca, com faturamento consolidado de 8,4 bilhões de dólares em 1998 e ocupando o posto de terceira maior indústria cervejeira do mundo, atrás da americana Anheuser-Busch (fabricante da Budweiser) e da holandesa Heineken. Logo os sócios da Ambev -- o lendário trio formado pelos ex-banqueiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira -- extrapolaram as fronteiras do mercado brasileiro para protagonizar a consolidação mundial do setor. Em 2004, a Ambev associou-se à sétima maior cervejaria do mundo, a belga Interbrew, numa arrojada troca de ações. Seus sócios transferiram o controle da cervejaria para a Interbrew e, em troca, levaram 25% da nova empresa. A Inbev acabou por incorporar os princípios de gestão que marcaram a Brahma (sobretudo a meritocracia e a obsessão com corte de custos). Hoje é a maior cervejaria do mundo.
2000 - A onda verde
No começo da década, a palavra "sustentabilidade" ainda não fazia parte do dicionário da maioria dos homens de negócios. Hoje, sobretudo com os temores gerados pela ameaça do aquecimento global, nenhum empresário ou executivo ignora o tema -- ainda que não se saiba exatamente quais serão os efeitos de uma mudança climática. A Natura, umas das maiores empresas de cosméticos do país, despontou como uma das primeiras a buscar a adaptação de seu modelo de negócios ao conceito de sustentabilidade. Um dos marcos desse movimento foi o lançamento, em agosto de 2000, da linha de cosméticos Ekos, produzida com matéria-prima brasileira desenvolvida junto a comunidades que habitam o interior do país. As diretrizes que nortearam a criação da Ekos -- uso da biodiversidade brasileira, sustentabilidade ambiental e social e aproveitamento das tradições populares -- apareciam pontualmente na empresa desde os anos 90. A postura "social e ecologicamente correta" acabou por se tornar um trunfo junto aos investidores. A Natura foi uma das primeiras brasileiras a compor índices de sustentabilidade, como o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, criado no final de 2005.
2000 - A Bovespa se rende à governança
A criação de três segmentos de listagem na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), destinados a empresas que adotam práticas mais rígidas de governança corporativa, em dezembro de 2000, representou a entrada do mercado de capitais brasileiro numa nova era em que as pressões por transparência são cada vez maiores. O Novo Mercado e os Níveis 1 e 2 de governança foram desenvolvidos pela Bovespa com base em um estudo realizado pelos economistas José Roberto Mendonça de Barros, José Alexandre Scheinkman, Luiz Leonardo Cantidiano e Antonio Gledson. Em fevereiro de 2002, a administradora de rodovias CCR se tornou a primeira empresa a fazer sua oferta pública inicial no Novo Mercado. De lá para cá, não só cada vez mais empresas aderiram ao Novo Mercado, como a Bovespa viu um ritmo sem precedentes de ofertas públicas iniciais (IPO na sigla em inglês). Se entre 1999 e 2003 apenas quatro empresas abriram seu capital -- inclusive a CCR, na época a única no Novo Mercado -- entre 2004 e março de 2007 esse número foi multiplicado por 10. No total foram 50 IPOs -- dos quais apenas dois no pregão tradicional. O chamado IGC (Índice de Governança Corporativa), que mede o desempenho das empresas listadas nos segmentos especiais, cresceu a uma taxa média de 49,8% ao ano entre 2002 e 2006, enquanto no mesmo período o Ibovespa valorizou 40,9%.
2002 - Lula derruba o mito
Às vésperas das eleições presidenciais de 2002, o banco de investimentos americano JP Morgan atribuiu ao Brasil um risco-país de mais de 2 000 pontos, um dos piores de todos os tempos. O país chegou ao mesmo patamar de países como Equador e Nigéria. A possibilidade da eleição do candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva deixou o mercado à beira da histeria. O mito do calote fez ressurgir o fantasma da ameaça da hiperinflação. O cenário era de caos. "O PT, no passado, tinha um discurso de ruptura e ameaça", diz o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. "Mas ao chegar ao poder foi tomado de um sentido de responsabilidade que o levou a preservar os aspectos que devem transcender a disputa partidária." Lula manteve a política econômica do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e consolidou a estabilidade econômica. Para os negócios no país, a manutenção foi fundamental. Evitou uma eventual fuga de investimentos que poderia ter tido conseqüências desastrosas para a economia. Hoje, o risco-país mantém um dos níveis mais baixos de sua história.
2006 - Empresas cada vez mais globais
O anúncio da compra da canadense Inco, a maior produtora de níquel do mundo, pela Companhia Vale do Rio Doce, em outubro de 2006, coroou a maior expansão já empreendida por uma companhia brasileira no cenário internacional. A aquisição, que envolveu quase 18 bilhões de dólares, representa o maior negócio protagonizado por uma empresa sediada no Brasil em toda a história e tornou a Vale a segunda maior mineradora do planeta. Desde 2001, quando assumiu a presidência da Vale, o executivo Roger Agnelli comandou 15 aquisições -- uma média de três por ano. As vendas da companhia crescem em uma velocidade fabulosa. Entre janeiro e setembro de 2006, as receitas chegaram a 18 bilhões de dólares, considerando a incorporação da Inco -- quase o dobro em relação ao mesmo período do ano anterior.
A história do crescimento da Vale começa em 1997, após a privatização. Embora fosse uma exceção entre uma montanha de estatais ineficientes, a empresa tinha seu futuro comprometido pelas burocracias impostas pelo governo. De lá para cá as vendas aumentaram duas vezes e meia, o valor de mercado cresceu oito vezes e os lucros se multiplicaram por 13. O mais importante -- o Brasil entrou com o pé direito num dos setores mais estratégicos da indústria de base em todo o mundo.
Fonte: Exame, edição 889, de 28/03/2007
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